Não restam dúvidas: foi o FC Porto temerário, atemorizado, com poucas forças para lutar, até contra a fortuna que entrou em campo. Foi goleado, demolido, por cinco-zero. Caiu sem glória. Como um inexperiente trapezista que se atreve a subir para uma corda bamba, sem o chão à vista, o FC Porto tremeu sempre que o Arsenal se aproximou da sua baliza. Não foi capaz de retirar espaço aos gunners, deixou que utilizassem a sua melhor arma: aquele passa e repassa fácil, simples e extremamente eficaz. Com a bola nos pés, poucas equipas jogam tão bem quanto este Arsenal. Os portistas sabiam, por isso, que não poderiam falhar. Mas entraram demasiado receosos, incomodados pela ansiedade. Pagaram-no caro. Saem pela porta dos fundos da Liga dos Campeões. E dizer que Helton foi o melhor jogador azul?
Há dias em que o melhor é nem sair de casa. A exibição de Fucile em Londres é um exemplo horrÃvel, incrÃvel como um jogador pode ficar de tal forma ligado a uma derrota. O lateral uruguaio, admirado pela sua garra, sÃmbolo da abnegação que os adeptos querem ver espelhada na equipa, ficou ligado a quatro dos cinco golos do Arsenal: involuntariamente colocou a bola nos pés de Bendtner e Eboué, nos primeiro e no terceiro golos, para além de uma falha colossal, verdadeiramente inaceitável, quando entregou a bola a Arshavin, que faria o passe para o segundo golo de Niklas Bendtner, e cometeu uma grande penalidade que culminou no último tento dos gunners. O último golpe num dragão há muito desaparecido, há muito com a bandeira enrolada, há muito com os braços em baixo.
Não se pretende com isto dizer que a culpa da derrota ante o Arsenal recai somente em Fucile. Fica ligado aos golos, contudo não é o único que deve ser crucificado. Esta equipa do FC Porto, convenhamos, não tem caracterÃsticas para assumir o seu futebol. Os gunners não tinham Fabrègas, o cérebro de Arsène Wenger, mas ninguém se lembrou do espanhol. Nasri e Arshavin, dois jovens, talentos puros, diverte-se a jogar e levam toda a equipa atrás de si. Abriram brechas na defesa azul, apoiaram-se em Bendtner, um avançado letal, fadado para marcar a portugueses. O jogo sintetiza a época do FC Porto: passiva, sem agressividade, na expectativa, impotente para impedir o andamento do adversário. A equipa entrou numa verdadeira panóplia de erros, ruiu, deixou que o Arsenal jogasse a bel-prazer.
Se na primeira parte nunca os portistas incomodaram Almunia, não tendo capacidade para construir lances de futebol atacante, há que dizer que, após o descanso, surgiram com outra alma. Com dois golos de desvantagem, longe de ser impossÃvel de recuperar, um tento bastaria para empatar a eliminatória, Jesualdo Ferreira prescindiu de Nuno André Coelho, a surpresa, central utilizado a trinco, sem qualquer rotinas nessa posição, para lançar Cristian RodrÃguez. A equipa portista melhorou, equilibrou o jogo, aproximou-se do golo. Teve oportunidades. Estava na melhor fase do jogo, mas voltou a errar. Fatal. Nasri entrou na área, bola no pé, como um Ãman, fintas sucessivas, encarou com três jogadores portistas, driblou e rematou para o terceiro golo. Finito. Tudo resolvido. Passividade total. Demasiado fácil.
Onze dragões de cabeça baixa, sem um lÃder dentro de campo, verdadeiramente à deriva e servindo de cobaia para um Arsenal empenhado em engordar o resultado. A história do jogo estava escrita, restava aos portistas terminarem com dignidade. Haveria de ser igualado o resultado de Setembro de 2008, quatro golos sem resposta, remate de Eboué, “assistido” por Fucile, após um canto favorável ao FC Porto. Simbólico do desnorte completo dos portistas, esperando pelo final do jogo, esperando não serem ainda mais dizimados pelos canhões britânicos. Em cima dos noventa, Fucile, entrado num pesadelo sem fim, cometeu grande penalidade e deu a Bendtner a oportunidade de firmar o seu hat-trick. O dragão encolheu-se, caiu com estrondo. O Arsenal é bom, sim, mas nada justifica tamanha humilhação europeia.